SALMOS 51:4

“Pequei contra ti, contra ti somente, e pratiquei o mal que tanto reprovas. Portanto, justa é a tua sentença, e incontestável, ao julgar-me condenado.”
– Salmos 51:4

(Ou: 7 pecados que cometi em menos de uma hora que me enviarão direto para o inferno)

Gula: Voragem, voragem – eu nunca disse, mas o que eu queria era consumir até o fundo do seu ser. Essa vontade de consumir e de possuir é o que sempre me destruiu, veja, porque eu não sei dizer não pra mim mesma quando algo me dá algum tipo de prazer. Eu deveria. Eu deveria ter parado antes que eu me viciasse nisso que eu ainda não entendo, mas que mora debaixo de nossas peles e nos faz agarrar naquilo ou naqueles que nos faz bem, mesmo que a abstinência nos destrua. Que não seja dito que eu não tentei. Mas se Deus criou os homens, Ele também criou essa vontade louca que a gente tem do corpo do outro e se acostumou a chamar de gula – ou de paixão.

Avareza: Deveria destruir todas as lembranças de você – os poemas, as músicas, os livros. Principalmente os livros: eles ainda estão na minha mesa de cabeceira. Eu não consigo me desfazer da materialidade daquilo que não mais existe, mesmo que eu devesse. Tenho certeza que uma biblioteca carente ficaria muito feliz de receber essas doações, mas eu não sou uma boa pessoa, e se tem uma coisa que eu odeio fazer é doar livros. O que isso diz sobre você, que me deu a única coisa que eu nunca consegui me desfazer?

Luxúria: O que mais me incomoda é o jeito que minhas mãos tremem toda vez que eu me lembro de-

Inveja: E de que adiantam essas habilidades, essas qualidades, o senso artístico, o bom gosto de música, a maturidade, o caralho a quatro, todas essas coisas que você diz quando tenta ser elogioso&gentil, se no final das contas não me serve de nada e você continua me olhando com esses olhos de quem se sente muito culpado quando a verdade é que nada do que eu sou nunca vai ser bom o suficiente?

Preguiça: Só me deixe aqui parada nesse resto de sol de outono, que eu não quero pensar em mais nada, que eu não quero fingir mais nenhuma cordialidade, eu só quero que as pessoas e o mundo e o universo me deixem quieta parada e absolutamente sozinha-

Ira: E eu busco talvez no jeito de falar ou de agir ou nas coisas que eu tenho a dizer o gesto ou a palavra que vai te desmontar e te magoar da mesma forma que você faz, a frase que vai conseguir te perfurar até o fundo do peito do mesmo jeito que tudo que você me diz, ou qualquer coisa que te faça sentir a mesma dor e a mesma paralisia e sofrer o mesmo tanto porque se tem uma coisa que não existe é justiça no fato de que eu estou assim e você tem a ousadia de estar feliz e eu te juro que tem momentos que tudo que eu queria era te destruir-

Orgulho: Santo Tomás de Aquino dizia que o orgulho era o pior dos sete pecados capitais – a rainha da perdição. Para ele, o orgulho era a porta de entrada para todos os outros pecados. De uns tempos pra cá, tudo que eu queria era ter era orgulho – das coisas que eu faço, das decisões que tomo, das minhas conquistas, de mim mesma que já descobri que a minha força é a melhor qualidade que eu tenho. Mas se isso é uma punição por ter me amado demais, que Deus ouça que eu não ligo de passar o resto da vida ardendo no inferno, se o caminho da salvação é se olhar no espelho e enxergar apenas os destroços que restam quando dois buracos negros colidem. E ter que agradecer – a ti toda honra e toda glória. Amém.

A pele que habito

Fato curioso sobre essa epiderme que me acompanha: ela raramente cria cicatrizes. Tombos, joelhos ralados, quedas de árvores, são poucas as vezes que ela se rebela e guarda rancor da minha inaptidão motora/cognitiva. Conto nos dedos as que possuo: joelho direito, numa queda quando criança em que fiz a proeza de cortar todas as camadas de pele até chegar no osso. Indicador direito, curiosa e pequenininha, conseguida sabe-se lá como, que só reparei quando fui colocar um anel no dedo uns anos atrás. Embaixo do queixo, quando pulei do sofá aos quatro anos de idade e aterrissei com a cara em cima de um lego.

De resto, é quase como se nunca tivesse caído ou me machucado na vida. Bela mentira, essa – eu que já quase reinventei o conceito de cair e se machucar, que desde pequena quis brincar de ser Ícaro e cair de lugares cada vez mais altos. É que, para o desespero da minha mãe, eu sou apaixonada por perigo: eu era a criança que brincava com fogo, queimava a mão no ferro, derretia vasilhas no fogão, subia em pés de limão e arranhava as pernas nos espinhos, escalava os batentes da porta, quebrava dedinhos nas quinas das camas.

De todas essas peripécias, ficaram poucas marcas. Eu tinha três linhas paralelas de queimadura no braço direito, conseguidas num ferro de passar roupa, que se extinguiram. Ou uma curiosa, em cima do peito, que consegui – sem brincadeira – quando derretia plástico em uma vela, sentada em cima do chão de tábua corrida da sala. Que eu não botei fogo na casa é um milagre, mas as marcas da atentação permaneceram na minha pele por muito tempo, até que um dia, sem aviso, olhei no espelho e tinham sumido.

Curiosas, essas cicatrizes da vida – existem coisas que doem um absurdo quando machucam, mas que depois viram uma história qualquer, pra contar num dos bares da vida, ou quando dedos curiosos esbarram nessas peças de museu e perguntam o que significam. Outras somem por completo – a gente só lembra quando vê alguém subindo nas mesmas árvores, queimando papéis e cometendo os mesmos erros. O ponto é que, eventualmente, todo machucado vira cicatriz, e toda cicatriz para de doer ou some, assim como o sol nasce todos os dias de manhã. A questão é dar tempo ao tempo. Porque a pele se recupera, e mesmo que faça chuva, o céu eventualmente voltará a ser azul. E será verão. Amanhã, quem sabe?

Mas é carnaval

Sexta-feira, véspera de carnaval, sol a pino, meio dia. Eu dentro do ônibus, cabeça encostada na janela, olhando pra fora esperando a folia de sábado de manhã. De repente: viaturas, mil policiais, curiosos, janela quebrada, um corpo negro estirado no chão da estação do MOVE – De que morreu eu não sei, mas o que quer que fosse, foi grave o suficiente para deixarem o homem descoberto, tomando vento, a morte mostrando sua cara terrível no corpo deitado como se olhasse estrelas. Eu tomei um susto, a moça do meu lado tampou os olhos do filho criança, mas o ônibus pulou uma estação e seguiu viagem, como se nada tivesse acontecido. Minhas mãos, tremores.

Sexta-feira, véspera de carnaval, sol a pino, meio-dia. Uma trupe de teatro de rua invade o ônibus com uma sanfona, toca Anunciação como se estivesse orando pela inocência que já perdemos há muito tempo. Leveza, descontração, a criança do meu lado bate palmas como se não pudesse ficar mais feliz, como se a vida fosse tão simples quanto palhaços de acordeão anunciando a alegria nos sinos das catedrais.

Sexta-feira, véspera de carnaval, sol a pino, meio-dia. Tanto tempo que vivo aqui, e o Brasil ainda me dói como um membro dilacerado, e é tão bonito. Mas amanhã é carnaval. Em meio à folia, a um corpo anônimo olha as estrelas. Como se anunciasse que.

Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar
Deixa o barco correr
Deixa o dia raiar
– Chico Buarque, “Noite dos Mascarados”

Afiamentos

Quem te afiou, meu bem? Alguém deve ter feito isso por você, porque eu duvido que alguém se faria tão lâmina de propósito, quer dizer, eu me afiei de propósito de certa forma, mas foi mais por proteção, entende, eu tenho um lado afiado ácido arisco mas jamais conseguiria perfurar até o âmago de alguém, se você olhar do lado certo eu até sou meio cega, mas você, senhor Jesus, você é quase uma lança, uma ponta de espada tão afiada que nem faz esforço para rasgar pele, perfurar ossos, cortar tendões, deixar o que um dia era corpo funcional&saudável uma bagunça disforme, como uma lâmina usada por cavaleiros medievais, você diz que machuca por honra mas você pode inventar as desculpas que quiser que a verdade é que quando você perfura alguém não existe explicação que consiga erradicar a dor, perigos, de alguma forma a culpa também foi minha de inventar de brincar com facas, eu sempre tive gosto pelo que pode me machucar, eu sempre achei que a dor de alguma forma me distrai daquilo que eu não quero pensar sobre, mas quando a dor é aquilo que eu não quero pensar sobre que eu percebo que a maior idiotice da vida é brincar com o que pode nos desfazer de alguma forma, eu queria te segurar nas minhas mãos mas você se alojou no meu peito, mas não é esse o ponto, o ponto é que eu acho impossível você ter se feito tão perigoso e destrutivo assim sozinho, e que em algum ponto da sua vida você encontrou alguém que era pedra, ou talvez eu só queira te ver em uma luz que me permita esquecer os cortes e os furos e os ossos perfurados e entender que você não faz por mal, e deixar que as feridas se curem sozinhas, eu que quase nunca tenho cicatrizes poderia esquecer então que um dia inventei de ousar me meter com lâminas, e poderia então esquecer que um dia eu sofri por você, mas enquanto isso não acontece ainda estou aqui segurando os pedaços perfurados do que um dia fui eu, que como lança não te vi chegar, e eu que sempre fui de arrancar curativos e puxar farpas das mãos ainda te mantenho aqui, perfurando um pulmão e umas artérias, você ainda está aqui alojado entre as minhas costelas, mas para fins de convivência vou ignorar o sangue as dores a pele cortada a memória do momento do ataque e sorrir por entre dentes ensanguentados e te dizer que tá tudo ótimo – só dói quando eu respiro.

7 coisas que gostaria de dizer, mas provavelmente não terei tempo hábil:

“You thought if you handed over your body
he’d do something interesting.”
– Richard Siken, Crush

1. Eu tenho tanta inveja do mar que beija sua pele sem pedir licença.

2. Camille Claudel, escultora brilhante, viveu um relacionamento merda com Rodin, também escultor. Ela esculpia, ele assumia os créditos. Viveram assim até que Camille fosse enclausurada em um hospício, plenamente sã, por ousar não aceitar a submissão que lhe tapava a garganta. Em uma de suas cartas para o mundo dos livres, Camille escreveu: Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta. Camille me dói como me doem todas as mulheres interrompidas, todas as mentes brilhantes tidas como loucas, como me dói aquela palavra maldita, quase – não te dói também, meu bem?

3. Pessoas como você não se apaixonam por pessoas como eu. Você gosta do mistério. Eu sou nervo exposto, ferida aberta, explosão, erupção. Eu não sei me manter pra mim se você me pede, e me derramo inteira aos seus pés. Aberta, exposta. Eu queria saber me guardar, mas não é assim que eu sou, menino. Não é assim que eu sou.

4. Tinha uma cortina meio transparente na sala, meio barrando a luz, meio iluminando seu rosto. Eu meio que quis parar para olhar como o sol fazia anoitecer alguns espaços, escondia metade dos lábios, como já fiz em tempos passados – mas o hoje não é o ontem, e segui pra cozinha como se eu pudesse apagar a sua imagem queimada a fogo nas minhas retinas, ignorando a tontura, as pernas vacilantes, o quase gritando seu potencial perdido no fundo da minha mente, tá tudo ótimo, bom dia, hoje dá praia, será?

5. Escrito na capa de um caderno de cinco ou seis anos atrás – ““Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente”. Até hoje? Sim.

6. Então me sabe aqui parada gripada debaixo de uma chuva fora de época, morta de frio e de cansaço, pra dizer que hoje eu acordei louca, que eu não quero conversar, que eu não quero nada mais que me lembre você, que eu vou arrumar uma maneira de te matar dentro de mim, nem que pra isso eu tenha que me matar um pouquinho a cada dia também porque morte pior é esse sentimento horroroso preso aqui no meu peito e eu não quero sentir mais nada nada nada-

7. Sempre achei minhas mãos meios frágeis – os dedos longos e finos demais, percebe, dá a impressão que dá pra quebrar fácil, fácil. Por incrível que pareça, eu nunca quebrei um osso do corpo, muito menos da mão, e olha que eu já fiz muito por onde. É como se eu me sentisse muito mais frágil do que eu realmente sou. Como na sua frente: você vê fortaleza, eu sinto castelo de areia seca num dia de vento. Desmorono só de olhar. 

Matthew and the Atlas – Gutter Heart

Stay

Mas já são sete e vinte e um, e no celular não tem mensagens, no facebook nenhuma notificação, o telefone não recebeu chamadas, todas as músicas do Cícero e dos Los Hermanos e do Cazuza e do Chico Buarque e do Nando Reis estão sendo escutadas por milhares de casais, mas baby, nós não somos um deles. Já são sete e vinte e um e fazem menos de quatro horas que seus lábios deixaram os meus pela última vez e não sei se choro de alegria ou de agonia, mas o celular não dá sinal de vida, e eu murmuro rodando o aparelho entre os dedos quem sabe um dia por descuido ou poesia você goste de ficar? Quem sabe, baby?

Eu tenho um milhão de coisas a dizer, um milhão de sentimentos presos em turbilhão dentro do peito, mas a única coisa concreta que eu tenho é a lembrança dos seus lábios nos meus e o seu perfume preso em meus dedos e meus cabelos. Tenho um milhão de questionamentos, mas na dúvida, eu vou escrever. Outro poema, até, eu que não gosto de escrever poesia. E tenho quase cem por cento de certeza que ele vai ser sobre você.

“Aren’t you something else.”

– Existe só um jeito de se suicidar – Ele disse – E esse jeito é viver. Até que você tenha 87 anos e seu reumatismo não te permita mais sair da cama, quando você olhar em volta e ver que seus netos já estão crescidos e criando as próprias famílias e lembrar de todas as viagens que você fez e todas as alegrias que teve e toda a história que você escreveu. Aí, enquanto você dorme, você vai embora. Viver é suicidar um pouquinho a cada dia e é a única maneira que você tem de partir.

“Então, que me seja permitido me suicidar um pouquinho mais,” ela pensou.